O Impacto do Álcool na Família PDF Imprimir e-mail
Escrito por Web master   
16-Nov-2007
Falar do álcool e do seu consumo implica distinguir entre o consumo moderado e o consumo excessivo. Ao contrário de outras substâncias tóxicas, como a heroína e a cocaína, o álcool é uma substância em que se aceita um consumo moderado, em adultos saudáveis. A maior parte das famílias portuguesas lidam com esta substância de forma saudável, outras pelo contrário, sofrem os malefícios de uma substância que se assume como uma droga quando é consumida em excesso. Neste caso existem duas tipologias clínicas de problemas de consumo excessivo:
·   o abuso
·   a dependência ou alcoolismo
tendo respectivamente um aumento da gravidade e dos danos.

O abuso é hoje um padrão de consumo frequente nos adolescentes e jovens adultos, que se caracteriza pelo beber com intenção de ficar intoxicado e com alterações de comportamento. As famílias muitas vezes não estão sensíveis para este problema, desculpando e desvalorizando os consumos dos seus filhos e sem querer estão a incentivar e perpetuar um padrão de consumo de risco com danos claros para o próprio e para o sistema familiar, por exemplo, o álcool e a condução é a principal causa de morte dos jovens portugueses. Por outro lado temos o Alcoolismo ou Síndroma de Dependência Alcoólica, uma doença cada vez mais frequente em idades mais jovens, e nas mulheres.

Um doente alcoólico é uma pessoa que sofre e que faz sofrer aqueles que lhe são próximos afectivamente, é considerada uma doença do “sistema familiar”, pois todos são afectados, sendo que o seu tratamento também apela a uma abordagem de todo o sistema.

Em que áreas é que a família pode ser afectada pelo abuso de álcool?
·   Área económico-social
Carências económico-sociais motivadas pela despromoção profissional e desemprego.

·  
Área Relacional
Perturbações relacionais e deterioração progressiva da vida familiar, sendo frequente situações de:
Maus tratos físicos e psicológicos aos diferentes elementos do agregado;
Violações e situações de incesto;
Negligência nos cuidados aos filhos e nas responsabilidades parentais;
Rupturas do sistema familiar (separação, divórcio).

·  
Na descendência
O lar do doente alcoólico é simultaneamente um lar patogénico e patológico, com graves repercussões sobre os restantes elementos, nomeadamente sobre os filhos. A instabilidade, a insegurança, o ambiente tenso e conflituoso, são características frequentes no ambiente familiar do doente alcoólico e que têm repercussões negativas ao nível do desenvolvimento das crianças que nele vivem e no desenvolvimento de patologias depressivas nos adultos. Quando é o pai o doente, estão comprometidas em termos psicológicos, a identificação com esta figura de referência. Quando é a mãe a doente, são frequentes situações de carência de afecto e de cuidados, negligência e abandono.
O ambiente patológico, e desestruturado em que vivem os filhos dos doentes alcoólicos  em geral é responsável por muitas  patologias infantis, nomeadamente:
- atrasos no desenvolvimento
- dificuldades na aprendizagem
- perturbações no comportamento
- insucesso escolar
- abandono escolar
- comportamentos desviantes
- Parentalização dos filhos; assumem responsabilidades dos pais (cuidam dos irmãos, das tarefas domésticas), e deixam de ser crianças.

Entre as acções directamente tóxicas do consumo excessivo de álcool sobre os filhos, deve-se distinguir as acções tóxicas pré-natais (consumo de álcool durante a gravidez) e que podem levar a abortos espontâneos, nascimentos da criança morta, partos prematuros, malformações que podem constituir o Síndroma Fetal Alcoólico. Por outro lado, temos as acções pós-nascimentos (ingestão de álcool durante a amamentação e durante a primeira infância), que provoca atrasos no desenvolvimento geral, para além de uma maior predisposição para desenvolverem uma doença alcoólica em idades muito precoces.


Quais os padrões de funcionamento mais comuns em famílias de alcoólicos?
·   Falta de confiança
A família deixa de confiar no doente alcoólico que promete sempre que foi a última vez que bebeu em excesso. Os conflitos são frequentes independentemente do doente estar intoxicado. 

·   Irresponsabilidade
Os doentes alcoólicos são frequentemente negligentes em relação às responsabilidades familiares e sentimentos para com a família: passam muito tempo fora da família, não acompanham a educação dos filhos e gastam recursos económicos que fazem falta em outras áreas. Dependendo da fase de progressão da doença, chega a um momento em que o doente bebe para viver e vive para beber, tudo é pensado em função do álcool, que se assume como a prioridade da sua vida.

·   Medo
A família vive o dia a dia em stress e medo permanente que o doente se embriague e a consequência disso nas suas vidas: chegar irritado, violento ou  ter um acidente.

·   Culpa
A família tende a culpabilizar-se secretamente pela situação de alcoolismo que assombra a sua família.  Os filhos acham-se “maus filhos”, sendo por essa razão que o pai ou a mãe bebe.

·   Solidão e isolamento
A lei do silêncio impera entre os vários elementos do sistema familiar; o álcool assume-se como o segredo da família e a comunicação entre os elementos fica perturbada, levando à solidão dos seus membros e ao isolamento social.

·   Vergonha
O sentimento de vergonha leva a família a evitar contextos sociais, com receio do comportamento vexante que o familiar alcoólico poderá vir a ter. Esta vergonha é a razão que impede muitas famílias de pedirem ajuda e que contribui para o seu isolamento.

·   Zanga, Mágoa
Sentimentos que vão-se instalando com o tempo de progressão da doença e que vão desgastando os elementos do sistema que se vêem impotentes perante o problema do familiar. A negação típica do doente alcoólico e a sua dificuldade em pedir ajuda desgasta a família ao ponto de levar à ruptura.


Tipos de ajuda para as famílias de doentes alcoólicos
Grupos de Auto-Ajuda
Grupos de Familiares e Amigos de Alcoólicos - Al- ANON
Tel. 21 216 03 97

Nestes grupos a família pode:
- Encontrar outras pessoas com os mesmos problemas
- Encontrar esperança em vez de desespero
- Melhorar a vida familiar
- Aprender a lidar com a doença alcoólica
- Recuperar a sua Auto-estima

Existem grupos para os filhos de alcoólicos:  ALATEEN
Tel. 21 216 03 97


Instituições especializadas
Existem três centros regionais de Alcoologia no país (em Lisboa, no Porto e em Coimbra) que têm como função trabalhar na área da prevenção e tratamento dos problemas ligados ao álcool.
O Centro Regional de Alcoologia do Sul – CRAS, está situado em Lisboa e tem como área de intervenção a zona sul do país (Lisboa, Algarve e Alentejo) e é uma instituição que trata doentes alcoólicos, mas também apoia as famílias, aconselhando-as no sentido de ajudarem o familiar a procurar ajuda. São também realizadas palestras informativas dirigidas aos familiares.

Site: www.cras.min-saude.pt (Centro Regional de Alcoologia do Sul)

Texto adaptado de Rita Lambaz (Centro Regional de Alcoologia de Lisboa)
 
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