Filhos de alcoólicos: serão diferentes? PDF Imprimir e-mail
Escrito por Web master   
16-Nov-2007
Estima-se que, nos Estados Unidos, 6,6 milhões de crianças com menos de 18 anos vivem em famílias com, pelo menos, um pai ou uma mãe alcoólico. Descobertas de pesquisas actuais sugerem que estas crianças estão em risco de desenvolver problemas cognitivos, emocionais e comportamentais. Acrescenta-se o facto de estudos genéticos indicarem que o alcoolismo tende a manter-se nas famílias e que existe uma vulnerabilidade genética para o alcoolismo. Contudo, alguns investigadores também revelaram que muitas crianças de famílias alcoólicas não desenvolvem psicopatologias nem alcoolismo. Existem três grandes questões de investigação, relacionadas com filhos de alcoólicos:

O que contribui para a capacidade de ultrapassar a adversidade presente em alguns filhos de alcoólicos?
Enquanto as descobertas das investigações sugerem que algumas crianças sofrem consequências negativas devido ao alcoolismo parental, uma maior proporção de filhos de alcoólicos possui um bom funcionamento e não desenvolve problemas sérios. Num estudo longitudinal de filhos de alcoólicos, os investigadores verificaram que, apesar de 41% das crianças ter desenvolvido sérios problemas de confronto e superação aos 18 anos de idade, 59% não desenvolveu problemas. Estas crianças que conseguem ultrapassar a adversidade partilhavam várias características que contribuíram para o seu sucesso, incluindo a capacidade de obter atenção positiva de outras pessoas, possuírem uma comunicação adequada, uma inteligência normal, uma atitude de cuidado perante outrém, o desejo de alcançar algo e o acreditar na auto-ajuda.



Os filhos de alcoólicos diferem dos de não alcoólicos?
Os estudos que comparam filhos de alcoólicos de não alcoólicos sugeriram que, apesar dos dois grupos diferirem numa variedade de áreas psicossociais, foram frequentemente observadas mais diferenças nas capacidades cognitivas. A função cognitiva em filhos de alcoólicos foi examinada por muitos pesquisadores porque constitui-se como um elemento importante para a adaptação em todos os estádios de desenvolvimento; pode ser medido uniformemente através dos estádios de desenvolvimento; e é frequentemente associado aos sintomas do alcoolismo. Investigadores descobriram que as classificações do QI, das capacidades (uma avaliação do raciocínio abstracto e conceptual), e da verbalização eram inferiores entre as crianças educadas por pais alcoólicos do que entre as crianças educadas por pais não alcoólicos.

É importante notar que as competências cognitivas podem variar com o instrumento usado para medir as capacidades assim como com o indivíduo que avalia as funções. Investigadores compararam as habilitações académicas e as funções cognitivas de filhos de alcoólicos e não alcoólicos, com um background não desvantajoso, e não descobriram diferenças entre os grupos. Os investigadores notaram, todavia, que as crianças com pais alcoólicos subestimavam as suas próprias competências. Simultaneamente, as mães de filhos de alcoólicos desvalorizavam as capacidades das crianças. As percepções das capacidades por parte das mães e das crianças podem afectar a motivação, a auto-estima e as capacidades futuras das crianças

As crianças em idade escolar, filhas de pais alcoólicos, costumam ter problemas académicos. As capacidades académicas podem ser uma melhor forma de medir o efeito de viver com um pai alcoólico do que o QI. Os registos escolares indicam que os filhos de alcoólicos experienciam dificuldades académicas como a retenção escolar, terminar o ensino secundário e requerem orientações dos psicólogos escolares. Apesar do défice cognitivo nos filhos de alcoólicos poder explicar, em parte, as suas fracas capacidades académicas, dificuldades de motivação ou o ambiente de stress em casa também podem contribuir para os seus problemas na escola.
Os estudos que comparam filhos de alcoólicos de não alcoólicos também descobriram que o alcoolismo parental está associado a algumas desordens psicológicas nas crianças. Divórcio, ansiedade parental ou desordens afectivas, ou mudanças indesejadas na família ou em situações quotidianas podem ser acrescentados ao efeito negativo do alcoolismo parental na função emocional da criança.

Os resultados de vários estudos mostraram que as crianças de famílias alcoólicas registam maiores níveis de depressão e ansiedade e exibem mais sintomas de stress generalizado (baixa auto-estima) do que as crianças de famílias não alcoólicas. Simultaneamente, os filhos de alcoólicos frequentemente expressam um sentimento de falta de controlo sobre o seu ambiente.

Finalmente, crianças de pais alcoólicos costumam apresentar problemas comportamentais. Os estudos efectuados demonstram que estas crianças exibem problemas como mentir, roubar, lutar, não ir às aulas e problemas de comportamento na escola, e eles são muitas vezes diagnosticados como tendo desordens de conduta. Os professores avaliaram os filhos de alcoólicos como sendo significativamente mais activos e impulsivos do que os filhos de não alcoólicos. Os filhos de alcoólicos também parecem estar em maior risco para a deliquência e para o abandono escolar.



As diferenças estarão especificamente relacionadas com o alcoolismo parental, ou serão semelhantes às características observadas em crianças cujos pais têm outra doença?
O ambiente na casa de uma família alcoólica e a forma como os membros da família interactuam podem contribuir para o risco de problemas observados em filhos de alcoólicos. Apesar de as famílias alcoólicas serem um grupo heterogéneo, as características comuns do grupo foram identificadas. As famílias de alcoólicos têm baixos níveis de coesão familiar, expressividade, independência, e orientação intelectual e níveis elevados de conflito comparado com famílias não alcoólicas. Algumas características, contudo, não são específicas de famílias alcoólicas: a fraca capacidade de resolver problemas e a comunicação hostil são observadas tanto em famílias alcoólicas como em famílias com outros problemas sem ser o álcool. Além disso, as características das famílias com membros em recuperação alcoólica e das famílias com membros não alcoólicos não diferem significativamente, sugerindo que a continuação do consumo de álcool pelos pais pode ser responsável pela separação da vida familiar num lar alcoólico.

O ambiente familiar também pode afectar a transmissão do alcoolismo aos filhos de alcoólicos. As crianças de pais alcoólicos têm menos probabilidades de se tornarem alcoólicos em adultos quando os seus pais constantemente determinaram e seguiram os planos e mantiveram estipuladas as férias e a regularidade das horas das refeições.

Curiosamente, os problemas dos filhos de alcoólicos podem não ser específicos desta população. Numa revisão de pesquisa sobre crianças cujas mães eram esquizofrénicas, investigadores verificaram que, assim como os filhos de alcoólicos, estas crianças tinham défices cognitivos. Particularmente, elas tinham uma capacidade limitada para manter a atenção e para perceber estímulos relevantes. Crianças em alto risco para a esquizofrenia revelaram uma auto-imagem mais negativa. O ambiente familiar também pode influenciar o risco para a esquizofrenia; crianças de pais esquizofrénicos – cujo ambiente familiar é turbulento – têm um risco mais elevado para desenvolveram a doença.



Filhos de alcoólicos: serão diferentes?
Um comentário do director do NIAAA, Enoch Gordis
As observações efectuadas oferecem aos cientistas um importante ponto de partida à medida que estes cuidadosamente elaboram estudos que buscam definir os factores que podem aumentar o risco e os factores que podem proteger os filhos de alcoólicos de consequências negativas.

Considerando os filhos de alcoólicos, é importante relembrar que, apesar de existir uma componente genética para a vulnerabilidade ao alcoolismo, os seus problemas não estão primariamente relacionados com o alcoolismo em si mesmo mas com a disfunção social e psicológica que pode resultar do crescimento num lar alcoólico.

Serão os problemas descritos em filhos de alcoólicos específicos para o alcoolismo parental, ou será que ocorrem frequentemente noutras famílias disfuncionais? Se este último se verificar, então os mecanismos específicos para o ácool podem não explicar os problemas dos filhos de alcoólicos. Mais, se todas as crianças de lares disfuncionais estão em igual risco, então a todas são conferidos os benefícios de uma política pública elaborada para ajudar as crianças de lares problemáticos.
  
 
 
 
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